Apostila 11
________________________________Intranqüilidades do Despertar -
II___
Na apostila 10 falávamos que se torna de suma importância
saber fazer a distinção do que ocorre com a pessoa infelicitada
em seu processo de despertamento espiritual. Saber diferençar
entre estado alterado de consciência, que é um desajuste
funcional entre os vários corpos, ou, se é detentora de
alguma anomalia físio-neurológica. Isso cabe ao terapeuta.
Quanto à pessoa em si, dizíamos, acompanhando dr. Roberto
Assagioli, que não são poucos os exemplos daqueles que
confundem essa irradiação do Eu Superior como sendo uma
faculdade própria e exclusiva de sua personalidade. Isto é,
de sua forma física de viver. Desse equívoco vêm
os exemplos citados naquela apostila, tal como os "seguidores fanáticos
de vários cultos".
De
tudo isso se depreende que a fase inicial do confronto da personalidade
com a sua consciência, ou usando a terminologia de Assagioli,
do "eu" com o "EU", é sempre
um acontecimento traumático, porque a personalidade não
"acredita" no que a consciência "diz e inspira",
preferindo seguir a costumeira rota de colisão e parceria com
a ilusão do mundo físico. Na figura 11A ilustramos esse
acontecimento, mostrando que devido aos traumas, entre os dois níveis
existenciais, como que se forma uma linha divisória que impede
à personalidade "enxergar" e entender os sinais que
lhe chegam do Eu Maior. Para ela só existe o mundo físico.
Vivendo nessa instabilidade que é proveniente exclusivamente
do despertar consciencial, que a situa fora dos padrões que a
sociedade classifica de "normais", e provadamente não
possuindo lesão físio-neurológica e nem estando
vitimada por distúrbios da emoção, mesmo assim,
quando frente a tratamentos pela ciência acadêmica a pessoa
é considerada num dos seguintes tipos: "(...)
esquizofrenia, psicose maníaco-depressiva e depressão
involutiva. (...)" (Página 71 - Laing)
Todavia o autor aponta que "as pessoas
têm esse comportamento porque sua auto-experiência é
diferente." (Página 71) O que quer dizer que
embora nos comportamentos possam se assemelhar aos distúrbios
enumerados acima, entretanto, na realidade, não se enquadram
nos virtualmente psicopatas.
Observem que ele usa o termo "auto-experiência",
que determina ser um vivenciamento particularizado, e não um
genérico comportamento de psiquismo deteriorado. Prosseguindo
nos esclarecimentos, e considerando que diante desses desvios comportamentais,
dos quais a pessoa nem percebe os estar vivendo, tal o envolvimento
e absorção que os fatos da auto-experiência lhe
causam, dr. Laing se pergunta: "A que
regiões da experiência isso leva ?" Isto
é, até onde o indivíduo irá, comportando-se
da forma como está ? Ele mesmo responde: "Essa
situação envolve a perda dos fundamentos comuns do 'sentido'
do mundo que compartilhamos uns com os outros." (página
72).
A pessoa, nos seus confusos extremos, onde não mais distingue
o senso comum da vida, tomando como "normais" suas atitudes
extravagantes, ou até agressivas, perde a percepção
do que seja mundo social e suas regras. Tudo aquilo que antes fazia
parte de sua vida, tais como família, planejamentos, concretizações,
etc, perdem o sentido. Tudo se resume, durante as crises, num correr
de um lado para outro, sem, no entanto obter qualquer definição
duradoura.
Diz
Laing que em tal circunstância a pessoa se sente como "(...)
jogada num vazio de não-ser no qual afunda."
(Página 72). Algo, assim, como o chão desaparecendo de
sob os pés e sendo tragada por abismo sem fim. (Figura 11B) Quem
nunca sonhou caindo em um abismo, sem ter onde se agarrar, e acorda
assustado, suando por todos os poros ? Acredito que todas as pessoas
já tiveram desses sonhos. A sensação que ele transmite
é horrível, mas um alívio imenso se apodera quando
a pessoa acorda e vê que foi só um sonho. Que se encontra
íntegra deitada em sua cama.
Pois é dessa forma que a pessoa se sente quando de suas primeiras
crises do Despertar. O mundo, o único que lhe era real, como
que lhe escapa das mãos. Sem dúvida, pode-se chamar a
isso de um colapso psíquico-personalístico. Uma indefinição
de SER, ou um "não-ser".
Para melhor visualizar esse estado emocional no qual a pessoa se vê
mergulhada, mostramos três quadros na figura 11C.
Quadro
1 - São exibidos os três corpos utilizados pela
Consciência, respectiva-mente nos planos corres-pondentes.
Quadro 2 - Os corpos se mostram
descentralizados e oscilando, como se fossem pêndulo. A cada instante,
inesperadamente, é um deles que se centraliza com a consciência.
Entretanto, seja qual for o que estiver no momento centralizado, repercutirá,
também nos demais, as percepções que aquele vivenciar.
Esse tempo de centralização poderá ser de alguns
minutos quanto de muitos dias. Quanto mais tempo perdurar a centralização
sobre o corpo Astral, ou sobre o Mental, maiores serão os traumas
ao nível do corpo Físico, pois mais tempo a pessoa permanecerá
confusa. Isso ocorre porque, em tal condição, cada corpo
adquire uma espécie de autonomia em relação ao
conjunto, provocando, ao mesmo tempo, sensações diferentes
sobre a consciência. Nessa situação, passam a coincidir,
simultaneamente, sensações do físico com as do
Astral e do Mental.
Quadro 3 - Aqui representamos o
que se pode chamar de estado "normal" de consciência.
Os corpos alinhados e centrados no eixo da consciência. E´
assim que se justapõem quando a pessoa está no estado
de vigília, ou acordada.
Mas, como estávamos falando de anormalidade, ou de estados confusos
que envolviam fanatismos de toda espécie, voltemos a Assagioli,
que agora faz uma recomendação de como lidar com tais
situações: "Está
claro que, nessa situação, é no mínimo perda
de tempo argumentar com a pessoa ou ridicularizar a sua aberração
(...) O melhor é mostrar-se simpático e, (...) assinalar
a natureza do seu erro e ajudá-la a aprender a fazer a necessária
distinção de níveis." (Página
56)
Níveis. Exatamente o que a figura 11C mostra. A cada influxo
de energia do Eu, predominantemente sobre determinado nível,
será o tipo de reação e sensação
sobre o corpo Físico, ou ao nível da Personalidade. Por
essa razão podem ocorrer reações exacerbadas, às
vezes, com violência, ou numa contumaz intolerância, dado
que ao influxo daquelas energias, essas pessoas se sentem ameaçadas
naquilo que consideram sua segurança.
Têm a impressão de que o que consideram ameaça
está a nível físico, pois não distinguem
a fenomenologia lhes transmutando os níveis de percepção.
Na confusão que se forma, tudo lhes parece estar acontecendo
no plano físico. Reagem, então, com atos tipicamente físicos.
Acompanhem
a figura 11D. Com ela queremos dizer que a "descida" do influxo
consciencial poderia ser comparada com o mesmo percorrendo o tubo de
uma alta torre. No quadro 1, temos
uma visão externa da torre, serenamente posicionada em seu ambiente
de existência. Este quadro simboliza o Ser, "fincado"
na Terra, mas, de alguma forma, alçando-se no espaço.
Quadros 2 - 3 - 4 - Visão
da mesma torre, sob o influxo descendente de energia.
Quadro 2 - O influxo de energia
consciencial inicia sua "descida", e ilumina o que seria o
corpo Mental. A "janela" consciencial desse corpo se abre
permitindo a percepção do que estiver se transcorrendo
naquele plano.
Quadro 3 - O influxo de energia
consciencial prossegue em seu descenso. Agora ilumina, também,
o corpo Astral. Aqui, também, a "janela" das percepções
desse plano, se abre. Neste momento, já são duas percepções
simultâneas, porém diferenciadas, para a mesma pessoa.
Quadro 4 - Prossegue a descida
das energias conscienciais, atingindo o ponto mais baixo, ou seja, o
corpo Físico. A partir daqui a pessoa tem, simultaneamente, a
percepção de todos os planos. Naturalmente que, numa situação
dessa, só poderia resultar em confusão mental.
Querem outro exemplo ? Imaginem três pessoas. Um brasileiro,
um russo e um chinês, sendo que nenhum deles conhece o idioma
dos outros dois. Os três estão conversando. Conversando,
não. Os três falam a um só tempo. Fácil deduzir
que nada será entendido por nenhum deles, e no ambiente só
estará a barulheira das vozes.
E´ assim que fica a mente de uma pessoa vivendo a confusão
conflituosa de uma crise de Despertar Consciencial. Vê muito,
ouve muito, percebe muito, mas nada lhe traz clareza, pois não
possui a coerência de um viver num único plano, de cada
vez. Ou, tomando o exemplo da torre, de apenas uma "janela"
aberta de cada vez.
Portanto, dispensar cuidados assistenciais a pessoas em tais circunstâncias
exige uma boa dose de bom-senso e criteriosa análise dos fatos,
sem se deixar levar por emoções que o momento causar.
Sem esse bom-senso o terapeuta será, fatalmente, envolvido pelo
desequilíbrio de seu consulente, porque as reações
deste são as mais inesperadas possíveis, como bem expressa
Assagioli no trecho a seguir:
"Há também casos em que
o súbito influxo de energias produz uma perturbação
emocional que se exprime num comportamento descontrolado, desequilibrado
e desordenado. Gritar e chorar, cantar e ter explosões de vários
tipos (...) Se for ativo e impulsivo, o indivíduo pode ser facilmente
impelido (...) a desempenhar o papel de profeta ou de salvador; pode
fundar uma nova seita e começar uma espetacular campanha de proselitismo."
Mas não é de se esperar por reações diferentes
das enumeradas acima, afinal, o campo psíquico da pessoa está
preso num turbilhão assustador. Este provoca alternâncias
que oscilam entre extremos, porque as sensações variam
de momento a momento, e as conseqüências finais são
imprevisíveis. Demos o exemplo das janelas da torre, figura 11D,
mas recordamos que na apostila
05, temos a figura 05A, mostrando que em casos desses, são
como as luzes ali representadas, que acendem e apagam, desordenadamente.
Há também, como expõe Assagioli, o caso de a pessoa
vir até a tomar iniciativas que parecerão sensatas. Exemplo,
arregimentar prosélitos para uma seita qualquer, porque nela
ele crê firmemente, fanaticamente. Obviamente, só muito
mais tarde os que nessa pessoa acreditaram perceberão que seguiam
uma pessoa, digamos, "excêntrica". Isto é, descentrada.
Descompensada.
Os tipos de comportamentos incomuns são muitos, além
dos já citados, e, para vê-los não é preciso
ir muito longe. Infelizmente, nossas ruas apresentam desses exemplos,
naqueles indivíduos que todos acham esquisitos, expressando uma
realidade inconteste, de que é muito vulnerável o que
chamamos de equilíbrio emocional. Às vezes, por pequenas
questões, o indivíduo transpõe a linha divisória
entre os dois campos, equilíbrio/desequilíbrio, e a sociedade
passa a rejeitá-lo.
De forma enfática Assagioli caracteriza as reações
da fase do Despertamento da Consciência, (EAC), com o que pode
ser chamado de "mediunidade aflorada". Algo que é comum
se ver nas ruas, repetimos, em templos religiosos e nos centros espiritualistas.
Por isso, observamos nas anotações de Assagioli, que elas
se confundem com as recomendações de Allan Kardec e de
Léon Denis, no que se referem ao cuidados a serem dispensados
à pessoa em desenvolvimento mediúnico, embora, naturalmente,
ele tenha usado de linguagem diferente.
Todavia, há que se fazer uma ressalva. Embora os apontamentos
de Assagioli estejam corretos, torna-se indispensável, e da mais
alta relevância, tomar-se expressivo cuidado na análise
desses fatos, quais os acima referidos.
A razão é a seguinte: Assagioli cita um exemplo de comportamento
incomum falando da possibilidade de uma pessoa com poderes visionários
vir a fundar uma seita. Supomos que nesse exemplo o emérito pesquisador
restringiu o fato à possibilidade da pessoa não estar
movida por um fundamento espiritual real. Ou seja, não estar
movida por uma inspiração de ordem espiritual, realmente,
superior.
Entretanto, perguntamos; como ter certeza, absoluta, de que o aquele
comportamento incomum, que aquela pessoa apresenta, é tão
só um delírio, passageiro ou não ?
Essa certeza é quase impossível de se obter. Vejam, a
história de todas as religiões conta que seus fundadores
deram os primeiros passos impelidos por inspirações que,
disseram, ter recebido de potestades espirituais. Portanto, atos visionários.
Assim foi com Sidharta Gautama (Budismo), Moisés (Judaísmo),
Jesus (Cristianismo), Maomé (Islamismo), para só falar
de alguns e, no entanto, de minguadas seitas com escassos adeptos, se
transformaram nas religiões mundiais da atualidade.
Por isso, nenhuma análise deve ser feita tomando-se por base
manifestações isoladas, mas, sem precipitação,
observar todas as variantes de conduta do indivíduo, para só,
então, assegurar-se de uma certeza, assim mesmo, certeza relativa,
porque uma certeza absoluta só o tempo poderá oferecer.
Outro detalhe a se observar nos apontamentos de Assagioli e Laing é
que até aqui não fizeram referência ao fato de que
sob o influxo de energia consciencial mais potente, a pessoa fique exposta
a possíveis invasões de emanações de outras
consciências, processos popularmente chamados de obsessões.
Dessa questão nós tratamos no estudo dos Chacras, apostilas
21 a 25 da série Mediunidade,
e nesta série abordaremos mais à frente.
Por enquanto, como já se percebeu, estamos dando destaque apenas
à emanação do próprio indivíduo sobre
si mesmo. Uma distinção que fazemos para tornar bem visível
o potencial latente em toda criatura, não desconhecendo, porém,
a interação inamovível do Ser individual com os
demais, espalhados por todo o cosmo, porque a destinação
de todos os Seres é sentir que...
..."pouco a pouco a (sua) alma se eleva
e, conforme vai subindo, nela se acumulando uma soma sempre crescente
de saber e virtude; sente-se mais estreitamente ligada aos seus semelhantes;
comunica mais intimamente com o seu meio social e planetário.
Elevando-se cada vez mais, não tarda a ligar-se por laços
pujantes às sociedades do Espaço e depois ao SER Universal."
O Autor desse poético texto é Léon Denis, e está
inserido em seu livro O Problema do Ser, do Destino e da Dor,
à página 120, editado pela Federação Espírita
Brasileira. Fenomenal obra que nos leva aos meandros da alma, esclarecendo-nos
sobre tantos Por Quês...
Finalizando, queremos dizer que esse "pouco a pouco"
referido por Léon Denis são as REAÇÕES CONSTRUTIVAS
que o indivíduo aplica quando se depara com as incontáveis
dificuldades de seu caminho evolutivo. Especialmente quando, num dado
período encarnatório, se vê enredado nas malhas
de um despertar espiritual. Portanto, todos os parâmetros comentados
acima ajudam-nos a abolir os equivocados conceitos que constroem a falsa
imagem de culparmos outras criaturas sobre tudo o que de infelicitador
nos aconteça. Na verdade, se olharmos bem para nós mesmos
veremos que as outras pessoas nos ajudam é a descobrir o Anjo,
ou o Demônio em nós contido, bem como os porquês
dos traumas que disso passam vir.
Bibliografia:
Allan Kardec - O Livro dos Médiuns - Livraria Allan Kardec Editora
Camile Flamarion - Deus na Natureza - Federação Espírita
Brasileira
Léon Denis - O Problema do Ser, do Destino e da Dor - Federação
Espírita Brasileira
Roberto Assagioli - Psicossíntese - Editora Cultrix
Stanislav Grof e Christina Grof - Emergência Espiritual - Editora
Cultrix
Apostila escrita por
LUIZ ANTONIO BRASIL
Agosto de 1997
Revisão em Dezembro de 2005
Distribuição gratuita citando a fonte